Gilberto Silva tinha 25 anos quando, pela primeira vez na carreira, jogadores de outro continente. Agora pensem que isso aconteceu logo no jogo de estreia da Seleção Brasileira pela Copa do Mundo da FIFA™ de 2002, contra a Turquia.
Sabemos o que aconteceu depois: viriam confrontos com China, Costa Rica, Bélgica, Inglaterra, novamente Turquia e, por fim, a Alemanha. Desnecessário dizer quão enriquecedora foi a experiência para o emergente volante do Atlético Mineiro que, até então, havia registrado em seu currículo internacional algumas poucas partidas contra times sul-americanos.
Gilberto, obviamente, viria a se tornar um ídolo no Arsenal pouco depois.
É com essa perspectiva que o pentacampeão mundial analisa o desempenho dos representantes brasileiros no Mundial de Clubes da FIFA 2025™.
Membro do TSG, o Grupo de Estudos Técnicos da FIFA, o ex-meio-campista celebra não só os resultados que levaram dois clubes de seu país às quartas de final como ressalta o possível impacto que essas campanhas podem gerar em casa.
FIFA: Como você recebeu esse ótimo desempenho dos clubes brasileiros aqui nos Estados Unidos?
Estou superfeliz. Independentemente dos que já saíram da competição, eles fizeram uma ótima primeira fase e performaram. Muita coisa tem acontecido dentro do nosso futebol, dentro do país. Há muita desconfiança no geral. Dúvidas sobre se a gente está no caminho certo ou nãoe. Essa competição não poderia ter sido melhor para o futebol brasileiro nesse sentido, primeiro para mostrar que nós temos qualidade, sim. Não só dentro de campo, mas no comando também, na parte técnica de cada equipe.
É de esperar um efeito em termos de autoestima, você acredita? Mesmo para times que não estão aqui. Clubes que até ontem estavam fazendo jogo duro contra seus rivais e agora os viram eles ganhando de europeus...
Sem dúvida. De certa forma serve também como um comparativo para os clubes que estão aqui. Para eles entenderem realmente que nível que nós estamos no mundo do futebol. Tem todo um contexto. Poderíamos sempre comparar os clubes do futebol brasileiro, sem que eles talvez não tivessem a oportunidade de jogar contra os europeus numa competição como essa. Agora eles estiveram contra aquele que é sem dúvida o melhor futebol do mundo, o europeu, pois eles têm muito mais recursos.
Mas incluímos aí também a oportunidade de conhecer clubes de outros continentes. Eu, por exemplo, não conhecia muito sobre o Mamelodi Sundowns ou o Wydad Casablanca. Você só consegue isso numa competição como essa. Para os clubes brasileiros, penso que independentemente do resultado de cada um, fica uma grande experiência para levar para casa, coisas positivas, e pensar naquilo que podem melhorar. É uma oportunidade de revisar o trabalho que está sendo feito, não só na parte técnica, mas da direção de cada clube. Pois eles também tiveram a oportunidade de interagir com o mundo inteiro aqui, fazer network e ver o que está sendo feito aqui fora.
Podemos falar um pouco do que vimos em campo dos times brasileiros?
Cada um tem a sua identidade, seu estilo próprio de jogar. Isso é uma coisa que não tem muito você mudar, né? Você tem que procurar cada vez se fortalecer dentro da sua própria identidade e melhorar em aspectos táticos, físicos e técnicos, mas cada um dentro do seu estilo.
O Botafogo enfrentou o campeão da Champions League e venceu quando todo mundo imaginava que perderia. Ele estava bem montado defensivamente falando, mas utilizando bem os dois jogadores de ataque, o Artur e o Igor [Jesus]. Eles eram a válvula de escape, mas, em vez de jogarem por dentro, estavam mais abertos, recebendo a bola e abrindo a defesa do PSG no contra-ataque.
E aí você o Fluminense com outro formato, com o Renato [Portaluppi] dando cara dele, fazendo aquilo em que ele acredita. É um jogo de bastante toque de bola que vem conseguindo os resultados.
[Nota: a entrevista foi gravada antes do triunfo sobre a Internazionale]
No Palmeiras, o estilo do Abel [Ferreira] é de uma equipe que sabe se fechar muito bem, mas ao mesmo tempo ela tem um poder muito forte de contra-ataque. Sabe atacar com jogadores de qualidade. Não só os 11 titulares, mas com recurso no banco, e isso é importante numa competição como essa. Impossível ganhar só com 11 jogadores.
O Flamengo, com sua maneira de jogar, foi para mim uma das equipes que teve estratégia muito boa. Uma equipe de posse de bola com muita qualidade, um jogo bonito de se ver. E com intensidade alternando de quando em quando. Quando precisava defender, ele se compunha e saía em velocidade. O time saiu [do torneio] para um grande europeu, o Bayern. Não é nada absurdo.
E o que esperar agora desta reta final?
Fiquei muito feliz com o que vi até aqui e continuo torcendo para que eles continuem avançando na competição, porque é importante para nós. Talvez muitas pessoas ainda puxem pelo lado bairrista, clubista, o que é natural. Mas é importante entender o valor de termos aqui representantes brasileiros competindo. Foram quatro brasileiros aqui. Tivemos nessa edição 12 clubes europeus, o que é a maioria e que sempre acontece também na Copa do Mundo, né? Então nós temos uma inferioridade numérica e, quando vemos nossos brasileiros avançando, isso é sensacional. Torço para que eles continuem avançando.