A seleção do Senegal venceu Marrocos por 1-0 e conquistou a Taça das Nações Africanas (CAN). Porém, o que aconteceu no relvado foi muito mais do que uma simples vitória.
De facto, o Senegal pode se ter tornado na primeira equipa a ganhar uma final depois de ameaçar abandonar o relvado. Para perceber esta atitude, bem como todos os momentos insólitos da noite, é preciso recuar ao apito inicial.

Foi num ambiente de grande expetativa que Marrocos e Senegal disputaram a final da CAN. O país do Magrebe acolheu competição na esperança de conquistar um troféu que lhe foge desde 1976, e muitos adeptos acusaram a CAF de beneficiar a equipa da casa em vários momentos.
Por exemplo, os apanha-bolas marroquinos têm recolhido as toalhas dos guarda-redes adversários, impedindo que sequem as luvas. Sabendo disto, Édouard Mendy pediu ao suplente, Yehvan Diouf, para segurar a sua toalha atrás da baliza. Diouf teve de defender a toalha com a sua integridade física, sendo perseguido e até arrastado no relvado, mas nunca a largou e acabaria a festejar com ela.
Quanto ao jogo em si, o Senegal podia ter-se adiantado na primeira parte, mas Bono trancou a baliza com defesas fantásticas. No segundo tempo, Marrocos reagiu e passou a controlar o jogo. A tensão era palpável à entrada para a compensação, onde uma final bem disputada entraria na história do futebol.

Aos 93 minutos, o Senegal chegou ao golo que seria da vitória. Num canto, Abdoulaye Seck cabeceou à barra e Ismaila Sarr aproveitou o ressalto da melhor maneira. Porém, o árbitro anulou o golo por falta de Seck sobre Hakimi, sem consultar o VAR.
A ferramenta só entrou em ação aos 98 minutos, para assinalar um penálti a favor de Marrocos. Foi então que o treinador do Senegal, Pape Thiaw, ordenou à sua equipa que abandonasse o relvado. O jogo esteve interrompido e a maioria dos jogadores senegaleses recolheu aos balneários... mas não Sadio Mané. Impávido e sereno, qual estátua humana de Patrice Lubumba, o capitão liderou os colegas de volta para o campo.
Enquanto isso, os adeptos envolveram-se em confrontos. Quando a polícia formou uma barreira entre a multidão e o campo, alguns adeptos do Senegal subiram aos painéis publicitários eletrónicos e destruíram parte deles. Assim, vários foram levados pelas autoridades, enquanto um segurança saiu de maca.
Corria o minuto 114 do tempo regulamentar quando Brahim Díaz teve condições para bater a grande penalidade. Com o destino de Marrocos nos pés, atirou... uma Panenka, que acabou nas luvas de Mendy. O guarda-redes festejou e o avançado chorou, enquanto o mundo do futebol estava incrédulo com o que assistia.

O Senegal foi de vencedor, para derrotado, para desistente, para derrotado novamente, para acreditar outra vez. Dessa crença nasceu o momento de inspiração que resolveu ao final. Aos 94 minutos do prolongamento, Mané recuperou a bola e Pape Gueye, recebendo um passe de calcanhar, aguentou a carga dos defesas e disparou um míssil para o fundo das redes.
O resultado ficou fechado, mas as polémicas terão consequências para além do campo. Na conferência do pós-jogo, Pape Thiaw foi vaiado por jornalistas marroquinos e acabou por abandonar a sala de imprensa. Em relação ao abandono do relvado, Gianni Infantino, presidente da FIFA, já condenou o episódio, que pode acarretar suspensões pesadas para vários elementos da seleção senegalesa, a meros meses do Mundial.
Nesta final, a CAN enfeitiçou o mundo do futebol. Da seriedade de um líder maior que os acontecimentos às lágrimas de um anfitrião esperançoso. Do jogo cheio de vida às dúvidas sobre aquilo que está por detrás. Os acontecimentos daquela noite em Rabat não podem ser explicados, apenas sentidos, e essa é a verdadeira magia.
