No dia 8 de junho, menos de uma semana antes do início do Mundial de Clubes da FIFA™, Roberto Martínez viveu horas de emoções intensas.
Depois de conduzir Portugal ao título na Liga das Nações da UEFA, em uma final em que o país ficou em desvantagem no placar por duas vezes diante da Espanha e acabaram levando a decisão para os pênaltis, o técnico estava exausto e eufórico ao mesmo tempo.
Com uma grande conquista para curtir e sem jogos da sua seleção até setembro, teria sido compreensível — e até esperado — se Martínez quisesse passar as semanas seguintes próximo dos entes queridos, em paisagens espetaculares e comemorando. No entanto, o que o espanhol fez foi pegar quase imediatamente um voo transatlântico e se apresentar para uma missão de um mês de duração e 63 jogos no total.
Participar do Grupo de Estudos Técnicos da FIFA montado para o primeiro Mundial de Clubes da FIFA com 32 times pode não parecer a escolha mais óbvia para alguém que, pouco tempo antes, estava completamente imerso no tenso ambiente da final contra a atual campeã europeia. Mas o novo trabalho, como o próprio Martínez explicou, era em parte uma missão de exploração, em outra expressão da sua paixão pelo futebol.
"O próximo passo para Portugal obviamente é tentar se classificar para a Copa do Mundo e [como os Estados Unidos são um dos países-sede] senti que era uma oportunidade única para ver de perto as condições daqui", explicou. "Também é algo que eu gosto muito: assistir ao futebol e analisá-lo de uma forma em que você pode se sentir relaxado e ser neutro."
"Comecei a fazer isso em 2010, na Copa do Mundo na África do Sul, e sempre gosto de me comprometer com um torneio. Acompanhá-lo de longe é uma coisa, mas é muito diferente quando você se envolve de perto, assistindo a mais de 60 jogos. Como técnico, descobri que a melhor maneira de me manter estimulado e informado, e de aprender o tempo todo é acompanhar os torneios dessa maneira, vendo tudo de dentro."
Esse olhar próximo deu a ele uma perspectiva única sobre o Mundial de Clubes, e Martínez compartilhou suas opiniões nesta entrevista exclusiva à FIFA.
Roberto Martinez: Vem sendo fascinante porque fico comparando com as minhas experiências na Copa do Mundo de seleções. E aqui existem dinâmicas que acontecem em uma Copa do Mundo. Mas também tem aspectos que são totalmente diferentes.
Acho que, no geral, é uma competição que trouxe três tipos de times: os que chegaram no meio da temporada e têm um [bom] nível de competitividade. [Vimos isso] principalmente com os times brasileiros. Depois temos os times que estão na pré-temporada, principalmente os europeus, e neles vimos uma grande diferença entre o primeiro e o terceiro jogo. Então, tem outro grupo de times que têm um técnico novo e talvez tenham feito só quatro treinos para se preparar para o primeiro jogo. É nisso que podemos ver muitas semelhanças com o que acontece com as seleções em uma Copa do Mundo.
Tem sido fascinante até agora. Grandes jogos. E provavelmente o melhor ainda está por vir.
Sem dúvida. Com o Al Ahly, fiquei muito impressionado com a forma como o novo técnico chegou e, em um período muito curto, criou uma identidade que você reconhece na equipe quando ela joga. Também fiquei muito impressionado com o Mamelodi Sundowns, a confiança que tinham em como jogavam, independentemente do adversário. Provavelmente não obtiveram os resultados que suas atuações mereciam.
No Real Madrid, foi fascinante ver o Xabi Alonso, porque ele conhece o clube por dentro. Acho que ele mostrou compreender em que ponto o time estava e está começando a fazer com que ele evolua pouco a pouco. Ele não chegou e mudou as coisas drasticamente. Acho que, com pequenos ajustes, está tentando descobrir quem são os seus jogadores. O terceiro jogo foi a primeira vez que vimos o seu esquema tático preferido [3-4-3], que ele usava no Bayer Leverkusen, e que encaixa bem para muitos jogadores do Real Madrid que nunca tinham jogado nesse esquema antes. Foi realmente interessante como o Xabi Alonso chegou, com uma flexibilidade muito clara, com o foco muito claro de montar uma equipe rápido mas sem deixar de respeitar o processo necessário. Acho que os próximos jogos vão nos dizer muito mais sobre essa fascinante trajetória dele no Real Madrid.
Acho que, se isso tivesse acontecido há dez anos, teria sido um choque enorme. Hoje, não é um choque para os grandes clubes, pelo menos porque na pré-temporada normalmente fazem uma viagem para a Ásia ou os Estados Unidos. Então existe a tendência de passar muito tempo juntos de qualquer maneira. Quando olho ao redor, vejo muitos treinadores aqui que tiveram experiência como jogadores na Copa do Mundo, e dá para ver que eles estão administrando muito bem o tempo dos jogadores fora de campo. Acho que esse é um grande aspecto de ser técnico de um clube ― que você precisa encontrar um jeito de dar normalidade aos jogadores, dar a eles um pouco de tempo para se desconectarem.
Esse lado das coisas tem sido interessante porque é evidente que os jogadores em geral estão gostando da experiência, gostando de estar uns com os outros. Vimos que algumas equipes estão no fim de seus ciclos, e alguns jogadores vão embora no fim desse torneio e têm uma oportunidade única de terminar o seu tempo [em alta]. E então vimos outros times que têm caras novas e é um novo começo para todos, com jogadores que querem impressionar uns aos outros.
Com certeza. Quando um jogador novo chega a uma equipe, os aspectos técnicos, táticos e físicos são os motivos pelos quais ele foi contratado. Mas essa chegada — a maneira como ele lida com as expectativas do novo clube, dos novos companheiros de equipe, a maneira como ele joga as partidas — é muito importante. Acho que há muitos jogadores que poderíamos mencionar aqui, desde o Dean Huijsen, do Real Madrid, até o Jonathan Tah, do Bayern de Munique, que, jogando em um Mundial (de Clubes) logo de cara, estão realmente progredindo nesse período de adaptação no novo clube.
Acho que eles têm sido uma referência e um exemplo. Acho que nunca tínhamos visto um placar como o que eles obtiveram contra a Inter de Milão na final da Liga dos Campeões, e existe uma razão para esse placar. É a forma como eles cresceram na temporada, conquistando títulos nacionais, encontrando um jeito de aproveitar a qualidade que têm. [Eles desenvolveram] uma maneira muito fluída de utilizar os meio-campistas, usando muita velocidade nas alas e uma coisa que todos adoramos: o talento no um contra um. É também um time que cria muitas oportunidades porque está muito bem treinado para defender rápido, avançado em campo, e recupera a bola muito rápido.
É uma equipe que conheço bem porque tem quatro jogadores de Portugal, e tenho visto uma grande evolução nesses jogadores. Eles claramente são um time com muita confiança, muita crença [em si mesmos], e quando passaram [da primeira fase] na Liga dos Campeões — porque aquele foi um período difícil na temporada deles — vimos que eles alcançaram outro nível e provavelmente se tornaram impossíveis de parar.
Gostei dos aspectos que são muito peculiares a esses times, ou aspectos que vêm mais das suas confederações. Por exemplo, a média de idade dos goleiros dos times da CONMEBOL é de 35 anos ou mais. Acho que isso é um aspecto cultural e uma crença de que o goleiro deve ser um jogador experiente, que ajuda os companheiros nas suas atuações. Há também o contraste com alguns times europeus, como o Salzburg, em que o goleiro tem apenas 18 anos.
Os times brasileiros têm sido interessantes. Veja Palmeiras e Botafogo jogando um contra o outro: duas linhas defensivas com quatro jogadores e dois volantes, muito bem estruturados, muito bem organizados e muito defensivos. Isso é algo que não vemos tanto nos times europeus, é uma forma diferente de se defender. Acho isso interessante porque, quando você está em um torneio como esse, os times e os técnicos se estimulam mutuamente. É isso que tem sido tão rico nesse Mundial de Clubes: compartilhar filosofias diferentes, culturas diferentes, com times que são competitivos de maneiras diferentes.